23 de fevereiro de 1992

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Escrevi esse texto há quatro anos, e os sentimentos continuam os mesmos:

“Hoje, 23 de fevereiro, faz 20 anos que vim morar em São Paulo. Era um domingo. Acompanhada de meu pai, havia tomado na rodoviária o Cometa das 14h, que passava por São Roque, seguindo pela sinuosa Raposo Tavares.
Descemos por volta das 16h no fim da rodovia, já no bairro do Butantã, e caminhamos alguns quarteirões com minha malinha até o prédio onde ficava a república em que moraria a partir daquele momento. Levava pouca bagagem, algumas roupas, travesseiro, uma caneca de plástico (que tenho até hoje).
O entusiasmo de começar uma vida nova, um fresh start, suplantava o medo de enfrentar sozinha a cidade grande. Pelo menos é o que eu lembro vinte anos depois.
Aproveitando que estudava à noite e ainda não fazia estágio, minhas primeiras manhãs e tardes foram dedicadas a conhecer a metrópole que já admirava desde criança. Eram tempos de dinheiro contado e, para economizar o passe do ônibus (não havia bilhete único na época), fazia longas caminhadas a pé. Os bairros do Butantã, Pinheiros, o centro antigo, a região da Paulista, o Itaim Bibi foram os primeiros a serem desbravados. Outros tantos vieram depois.
No Itaim, costumava esperar o ônibus de volta em um ponto que ficava próximo à antiga fábrica da Kopenhagen. O cheiro de chocolate meio baunilhado era matador, com ênfase no R, como eu falava naquela época.
O sotaque se perdeu um pouco, assim como alguns vocábulos e expressões. Pior que é! Filãozinho, cuiara, xéé, chovendinho e tantos outros…
Os bairros, as ruas, a arquitetura, as pessoas. Nesses 20 anos, conheci bastante gente e algumas estão na área até hoje. As pessoas: foi e tem sido a melhor parte de viver em São Paulo, a cidade que instiga, segundo um grande amigo. E se eu tenho sido feliz nessas duas décadas paulistanas, muito devo a todos que cruzaram meu caminho e, de uma forma ou de outra, me ensinaram a (con)viver melhor na cidade, com sua magnitude e intensidade ímpares.”