A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo

Era uma vez uma garotinha muito curiosa. Chamavam-na Maria Perguntadeira, tamanha era sua curiosidade pelas coisas do mundo.

– O que, quem, quando, como, onde, por quê? – disparava a Perguntadeira em todas as direções.

Enquanto não conseguia uma explicação satisfatória, Maria saía perguntando aos pais, aos vizinhos, ao padre, ao farmacêutico e até aos passarinhos.

– Os passarinhos me ouvem e respondem. Não entendo as respostas porque ainda não aprendi Passarinhês – explicava a garotinha.

Todos os dias Maria observava o pôr-do-sol da janela do seu quarto. Quando ainda sobrava um resto de luz no horizonte, gritava para o rei dos astros:

– Por que você vai embora antes da Noite chegar?

Resposta nenhuma Maria ouvia. Só o vento assoviando. Uma bela tarde, porém, a garota ouviu mais que barulho de vento. Uma voz lhe respondeu:

– Se o Sol não for embora, a Noite não chega.

Levou um baita susto a Maria Perguntadeira. “Será que a árvore fala ou o Sol me respondeu?”, pensou.

Mas nisso, apareceu no galho da árvore um pássaro.

– Respondi a sua pergunta? –  disse.

A garota ficou surpresa em entender o que ele falava.

– Sim, mas você está falando em Passarinhês?

– Não – respondeu – falo na língua dos humanos.

Maria não cabia em si de contentamento. Afinal tinha encontrado alguém que explicasse suas dúvidas.

– Quem é você? – quis saber a curiosa garota.

O Pássaro ficou irritado e falou ríspido:

– Como ousas me perguntar isso? Até parece que sabes a resposta! Eu é que te pergunto: quem és tu?

Antes que Maria esboçasse uma reação, continuou:

– Se em 24 horas não perguntares nada a ninguém, volto aqui e te respondo tudo. Mas, se fizeres uma só perguntinha, por mais boba que seja, para qualquer criatura, imediatamente apareço e te castigo por ser tão incontrolavelmente perguntadeira.

Dito isso, o pássaro voou, deixando a garota entregue aos pensamentos. 

“Como, quem sou eu? Eu sou eu e pronto! E esse pássaro infeliz ainda tem coragem de me proibir de perguntar?!”

Maria estava inconformada, mas não havia remédio senão esperar o dia seguinte. Continuou pensativa. “Será que eu não sou eu?  Mas quem sou eu então?”

Antes de dormir, Maria pegou sua boneca de estimação. Apertou-a com força e falou chorando:

– Não sei mais quem eu sou. Eu sou alguém?

Nessa hora, uma luz brilhou no quarto. Era o pássaro.

– Oh, Maria Perguntadeira, não consegues mesmo viver sem perguntar? Terás então, como dever para o resto da existência, responder os “o que, quem, quando, onde, como e por quê”, que tanto gostas de saber. Se é um castigo o que aplico, só o destino dirá.  Maria nunca mais viu o pássaro, nem tampouco se livrou da praga. Foi jornalista até o fim dos seus dias.