Barba Branca

Tudo começou em uma tarde melancólica de início de outubro, logo após o cochilo imperial, naquele desbotado ano de 1877. D. Pedro II estava em seu gabinete, a passar os olhos pelas correspondências recebidas, quando ordenou ao secretário particular:

– Chama lá o Bento, urgente!

A notícia que o Imperador desejava sua presença imediata no palácio surpreendeu Bento.

– Despachei com o Imperador ontem e não me lembro de nenhuma pendência… Diga que em pouco mais de um quarto de hora lá estarei, disse o homem ao estafeta encarregado de transmitir o recado.

Bento, ou melhor, José Bento da Cunha Figueiredo era o então Ministro de Estado dos Negócios. Na corte, ostentava o título de Visconde do Bom Conselho.

D. Pedro II já mostrava sinais de impaciência, pela espera, quando a porta se abriu e o secretário anunciou:

– O ilustríssimo Visconde do Bom Conselho e Ministro de Estado dos Negócios. – Mande-o entrar – disse D. Pedro II.

O visconde entrou no gabinete e cumprimentou o Imperador, que estava em pé, ao lado da ampla mesa que lhe servia de escrivaninha. Sobre o tampo de mogno envernizado, havia uma baixela de prata com meia dúzia de envelopes. D. Pedro II pegou o primeiro da pilha e o entregou ao nobre.

– Ilustríssimo visconde, o que vê neste envelope?

Bento colocou o monóculo, pegou a correspondência e observou a caligrafia caprichada com a qual o nome do Imperador estava manuscrito. Virou o envelope para ler o remetente, no caso o presidente da província de São Paulo. Nada naquele pedaço de papel chamava a atenção em particular.

– E então? – questionou D. Pedro II.

– Majestade Imperial, eu vejo que se trata de uma correspondência oficial.

– Sim, sim, mas não é disso que estou falando. Observe melhor.

– É um envelope que chegou pelo correio, selado e carimbado.

– E o selo, o que me diz do selo?

– É um dos selos atualmente vigentes, no porte de 100 réis. Se não me engano, é da última emissão lançada.

– Já vi que não percebe. Devolva-me a carta – disse o Imperador, em um tom de voz beirando a impaciência.

Com o envelope na mão, apontando para o selo colado, o Imperador perguntou:

– Quem é essa figura estampada no selo, meu ilustríssimo visconde?

Bento achou a pergunta estranhíssima, pois o selo em questão reproduzia monocromaticamente uma imagem do próprio D. Pedro II.

– É Vossa Majestade Imperial em pessoa.

– É aí que está a questão, meu prestimoso Bentinho. Esse não sou eu. O retratado no selo é um sujeito de barba preta, com algumas ilusões na cachola, vestindo um jaquetão sóbrio e modesto. Imagine o susto de um brasileiro que só viu a imagem de seu Imperador nos selos ao me encontrar agora, com a barba esbranquiçada, um pouco mais pesado, a exalar maturidade? Entende o que eu estou a dizer? Pois bem, precisamos atualizar esses selos, porque é pela via postal que a imagem do Imperador corre os quatro cantos do Brasil, ao menos até as paragens aonde o correio chega.

– Entendo, entendo. Mas como este ministro e servo pode ser-lhe útil?

– Desejo que fale com a direção dos Correios para providenciar a substituição dessas estampilhas até o início do próximo ano, se possível.

– Conte comigo, Majestade Imperial. Em um ou dois dias, terá notícias minhas. – Assim espero. Vemo-nos em breve, passar bem – despediu-se o Imperador.

O ministro deixou o Palácio Imperial decidido a livrar-se logo da incumbência. Apesar do adiantado da hora, rumou diretamente da Quinta da Boa Vista para o Largo do Carmo, onde ficava a administração postal do Rio de Janeiro. Bento conhecia bem o diretor-geral dos Correios, o Dr. Luís Plínio de Oliveira, de modo que poderia quebrar o protocolo e chegar sem avisar, mesmo com o sol já se despedindo. Com certeza, ele entenderia a urgência da situação.

E foi, de fato, o que aconteceu.

Ao ser anunciado da presença do Ministro de Estados dos Negócios, Oliveira suspeitou que houvesse algum motivo de algo de força maior naquela visita repentina.

– Vim em missão imperial. D. Pedro II me chamou hoje ao palácio para dizer que deseja substituir os selos nos quais aparece com a barba preta por uma imagem mais atual, já com a barba branca.

– Compreendo.

– E há alguma urgência, porque a Majestade Imperial quer ver esses novos selos no máximo até os primeiros dias do próximo ano. Será possível?

– Ilustríssimo visconde, acredito ser possível sim. Necessitaremos apenas ter em mãos um novo retrato do Imperador, aprovado pelo mesmo, para providenciarmos a impressão. O chefe da seção gráfica se encarregará de desenhar o modelo a ser encaminhado para a American Bank Note Company, em Nova Iorque, firma responsável por imprimir nossas emissões. Se não me engano, na semana que vem parte um navio do Rio de Janeiro para os Estados Unidos da América. Então, temos alguns bons dias para

providenciar tudo, de modo que as primeiras folhas dos novos selos possam chegar à corte entre fim de dezembro e início de janeiro, no máximo.

– Em relação ao novo retrato, o senhor tem alguma sugestão?

– Para esses velhos selos do Imperador com a barba escura, utilizamos como base um retrato que aqueles fotógrafos estrangeiros, que andaram pela corte, o Stahl e o Wahnschaffe, fizeram de D. Pedro II em 1865. Lembro bem porque eu já era o diretor- geral dos Correios na ocasião. Foi o próprio Imperador que recomendou que utilizássemos aquela imagem. Podemos proceder da mesma maneira. Não sei se é de conhecimento do ministro, mas fui eu que sugeri a impressão dos primeiros selos com a imagem do Imperador.

– Não me recordava.

– Havia pouco tempo que eu estava à frente da direção dos Correios e, particularmente, não gostava dos selos que utilizávamos desde 1843, apenas com as cifras gravadas. Na primeira oportunidade que tive, questionei meus subordinados por que não seguíamos o exemplo da Inglaterra, estampando nos selos postais a imagem do nosso soberano. Lembro-me dos olhares incrédulos dos meus subalternos. Um deles, o Fagundes, que trabalhava nos Correios desde muito antes da reforma postal de 1842, foi o único que se atreveu a me dizer algumas palavras. Num tom de voz que demonstrava sua indignação, afirmou-me que ele e os demais empregados teriam pudores em macular a imperial figura com um sujo e feio carimbo, de modo que era mais adequado o Brasil continuar com os selos de cifras. Por esse raciocínio, meu caro ministro, via-se a mentalidade tacanha que reinava naquele ambiente.

– Como o senhor conseguiu reverter o conservadorismo e levar adiante a ideia do selo com a imagem de D. Pedro II?

– Tratei de escrever uma missiva ao antigo secretário-geral dos correios da Inglaterra, Sir Rowland Hill, que havia deixado o posto havia pouco tempo, solicitando sua opinião sobre o uso da imagem de monarcas nos selos postais. Meses depois, recebi a resposta, muito positiva, na qual ele argumentava sobre a importância que o selo postal representava para divulgar, de forma prática e sem grandes custos, a imagem real, no caso inglês, a da Rainha Victoria, em todo o território por ela governado, reforçando entre os súbitos um sentimento de lealdade.

– Curioso é que, com outras palavras, D. Pedro II utilizou-se desse mesmo pretexto para solicitar-me a atualização dos selos.

– Não há coincidência, pois foi com esse argumento que convenci o presidente do Conselho de Ministros a marcar uma audiência com o Imperador, para que eu pudesse, pessoalmente, apresentar minha ideia. No dia da audiência imperial, além da resposta de Sir Rowland Hill, levei uma porção de envelopes estrangeiros, com selos da Inglaterra, obviamente, e também da Espanha, Prússia e Portugal, para ilustrar minha sugestão. D. Pedro II, para minha surpresa, não só aprovou a sugestão sem muito pensar, como já tinha conhecimento daqueles selos, pois os colecionava. Ele próprio mostrou sua preciosa coleção, enquanto acertávamos os detalhes da impressão da primeira série com a imagem do Imperador.

– E quanto à reação de seus subalternos?

– Ah, visconde, foi uma pândega. No primeiro dia de circulação dos selos com a figura de D. Pedro II, houve uma espécie de motim. Ninguém queria mesmo sujar a face imperial. Pois eu fui à expedição, peguei o carimbo e obliterei envelope por envelope, dando o exemplo. E naquele momento, institui que toda vez que os Correios lançassem um selo novo, o diretor-geral ou representante por ele indicado conduziria a primeira obliteração.

– Boa história, Oliveira. E quanto à nossa demanda atual?

– Peço apenas o obséquio de o ilustríssimo visconde marcar uma audiência o mais breve possível com o Imperador, para cuidarmos da escolha do retrato. Na data e hora marcadas, comparecerei ao Palácio Imperial acompanhado do chefe da seção gráfica. Quanto antes, melhor.

– Pois estamos acertados então. Passar bem – despediu-se o visconde.

Dois dias depois, o estafeta do Palácio Imperial entregou nas mãos de Oliveira o bilhete do Imperador, no qual solicitava o comparecimento do diretor-geral dos Correios em audiência marcada para o dia seguinte, às 10 horas e um quarto.

Minutos antes da hora marcada, Oliveira e seu subalterno, José Carvalhaes Sobrinho, chefe da seção gráfica dos Correios, adentraram o Palácio Imperial, sendo conduzidos a uma ampla sala onde, no centro, havia uma mesa com 24 cadeiras. Enfeitavam as quatro paredes elegantes pinturas que retratavam a família real e aspectos da vida da corte.

Oliveira já havia estado naquele recinto, de modo que se sentia, por assim dizer, à vontade no ambiente. Era onde ele havia sido recebido 12 anos antes e, à exceção de um grande quadro na parede oposta à porta, nada ali era novo aos seus olhos.

Mas para Carvalhaes, ao contrário, tudo servia de motivo para aumentar seu desconforto. A começar da tal pintura, que retratava o Imperador em seu traje majestático, de coroa na cabeça, manto de veludo com bordados a ouro e cetro em punho. Dali a pouco tempo, quiçá segundos, essa mesma figura imponente e, de certa forma, intangível a um brasileiro comum se materializaria naquele ambiente.

A porta se abriu de repente, causando um certo susto em Carvalhaes. Mas não era ainda D. Pedro II e, sim, o Visconde do Bom Conselho.

– Bom dia, senhores. Meu caríssimo Oliveira, parece que a coisa vai andar rápido, não? – disse Bento, estendendo a mão para cumprimentar o diretor-geral dos Correios.

– Sim, ilustríssimo visconde. E para que ande ainda mais rápido, vim acompanhado do chefe da seção gráfica, o senhor José Carvalhaes Sobrinho.

– Ao seu dispor, visconde.

Não tardou muito para a porta se abrir novamente e, desta vez, era D. Pedro II quem adentrava a sala.

Após os cumprimentos protocolares, o Imperador ocupou a cabeceira da mesa e fez um gesto para os três se acomodarem ao seu redor.

– O visconde já me adiantou que será possível atender meu pedido, correto? – Sim, Majestade Imperial.

– Assim, coloco à disposição e apreciação dos senhores alguns retratos meus mais recentes.

Nesse momento, o secretário que permanecia em pé ao lado de D. Pedro II depositou uma pequena caixa de madeira na mesa, em frente ao Imperador, que abriu a tampa e retirou cinco fotografias do interior. Em todas, ele aparecia de barba branca.

Em silêncio, o Imperador passou os retratos para o visconde, depois o visconde para o diretor-geral dos Correios e, por fim, para Carvalhaes.

– Então? – perguntou D. Pedro II.

– Todos os retratos estão perfeitos! – adiantou-se em responder o diretor-geral dos Correios.

– Concordo. E o que diz nosso especialista nas artes gráficas? – perguntou o visconde.

– Todas as fotografias estão muito bem tiradas e impressas em excelente material. Mas há uma, em especial, que tem uma condição superior, com foco bem nítido e ótimo contraste de cor. Em minha modesta opinião, com todo o respeito, este retrato seria a melhor opção para servir de ilustração a um selo postal – disse Carvalhaes, apontando para uma fotografia na qual D. Pedro II estava vestido de casaca escura, tinha uma expressão plácida no rosto e, ao contrário das demais, olhava diretamente para frente.

– Pois já temos então a imagem do novo selo. A fotografia foi tirada no ano passado, nos Estados Unidos da América, nessa última viagem que fiz pelo mundo. Gostei tanto desse retrato que encomendei ao fotógrafo uma dúzia de cópias.

Dando a audiência por encerrada, D. Pedro II levantou-se e se despediu dos presentes. Já estava quase alcançando a porta quando se deteve e retornou alguns passos na direção dos três homens.

– Apenas me esclareçam uma curiosidade. Como será feito o modelo do selo?

– O senhor Carvalhaes aqui presente fará um esboço em tamanho ampliado, desenhando a moldura, os afrescos, a indicação de valor e a aplicação da palavra Brazil, bem com um estudo de cores. Esse desenho passará por aprovação superior antes de

seguir, por navio, para Nova Iorque, juntamente com o retrato original e as especificações técnicas, para a gráfica que fará a impressão das folhas de selos.

– E esse esboço pode ser elaborado aqui mesmo no Palácio Imperial? Quero acompanhar o processo, se possível.

– Com certeza, Majestade Imperial. Amanhã, logo à primeira hora do expediente, o senhor Carvalhaes aqui retornará, com suas ferramentas de trabalho.

– Agradeço a gentileza – disse D. Pedro II.

No dia seguinte, Carvalhaes chegou sozinho ao Palácio Imperial. O mesmo serviçal da manhã anterior o conduziu até a sala da audiência, aquela com a grande mesa, as 24 cadeiras e os elegantes quadros. Ali seria sua oficina de trabalho até terminar o esboço. Embora ele já estivesse mais familiarizado com o ambiente, a tela de D. Pedro II em seu traje majestático ainda causava-lhe algum incômodo. Sem dúvida, preferia o Imperador vestindo uma sóbria casaca que aquela roupa com exóticos adereços, como a murça feita de penas amarelas de papo de tucano.

Ao escolher onde sentar e espalhar seus apetrechos de trabalho, o rapaz optou pela cadeira da cabeceira da mesa na qual ficaria de costas para a tal pintura, para não correr o risco de se desconcentrar de seus afazeres.

Passava um pouco das 11 horas quando a porta se abriu e uma copeira entrou na sala com uma bandeja. A mulher estendeu uma pequena toalha de linho branco na outra ponta da mesa, colocou um prato com o desenho do brasão imperial na borda, talheres de prata, guardanapo igualmente de linho e uma taça de cristal. Sem dizer uma palavra, saiu do ambiente. Voltou minutos depois, desta vez com as travessas da refeição. Leitão assado, feijão, farinha e mandioca cozida, além de jarra de água e compota de goiaba. Desta vez, antes de sair, ela transmitiu um recado do Imperador:

– A Majestade Imperial deseja conferir o andamento do trabalho. Antes de deixar o palácio, é solicitada a gentileza de o senhor se dirigir ao secretário.

– Agradeço o recado e a refeição.

A pausa para o almoço veio em boa hora. Desde que havia chegado ao Palácio Imperial, Carvalhaes não se levantara da cadeira, tamanha era sua concentração na tarefa de terminar o esboço do selo. Assim, depois de se fartar com a boa comida que lhe fora servida, achou por bem esticar um pouco as pernas e dar uma volta ali na sala mesmo, olhando as grandes pinturas que enfeitavam o ambiente.

Uma delas, muito bonita, mostrava uma cena da família imperial reunida, D. Pedro II em pé, tendo à direita a Imperatriz Teresa Cristina, sentada, de vestido vermelho, e à esquerda, as filhas Isabel e Leopoldina, as princesas ainda crianças. Outro quadro que chamou a atenção de Carvalhaes retratava D. Pedro II já adulto, com a barba ainda escura, vestindo um uniforme militar e a faixa imperial.

– Essa sim é uma vestimenta que impõe respeito e transmite autoridade – pensou.

Aproximou-se, então, do quadro em que D. Pedro II vestia o traje majestático e ficou a observar os detalhes. Absorto que estava, Carvalhaes não percebeu quando a porta se abriu e alguém entrou no recinto, dando alguns passos na direção em que ele estava.

– Vejo que, além das artes gráficas, o senhor aprecia as artes pictóricas.

Era o Imperador, para surpresa do rapaz, que levou segundos para responder:

– Sim, Majestade Imperial, eu aprecio muito qualquer manifestação artística. Após esse lauto almoço, o qual agradeço, dediquei alguns minutos para me deleitar com a visão dessas elegantes pinturas antes de retornar ao trabalho.

– Fez bem, senhor Carvalhaes. Quando entrei na sala, percebi que olhava este quadro com um ar um tanto intrigado. Posso tomar a liberdade de lhe perguntar o motivo?

O chefe da seção gráfica ficou um pouco desconsertado com o questionamento imperial. Não sabia bem como responder.

– Com todo o respeito, Majestade Imperial, não sei dizer se algo me intriga. Estava apenas comparando as diferenças entre os trajes retratados neste quadro e naquele ao centro, o do fardamento militar.

– Essa pintura em que apareço vestindo o traje majestático é de autoria do grande Pedro Américo, um dos mestres mais brilhantes da Academia Imperial de Belas Artes. O quadro retrata o momento em que eu discursei na abertura da Assembleia Geral, em maio de 1872, e foi pintado por minha solicitação. Eu tinha decidido que aquela seria a última vez em que eu vestiria o traje majestático e achei por bem registrar o momento.

– Sem querer parecer invasivo, por que decidiu abolir o traje, Majestade Imperial?

– Sabe, senhor Carvalhaes, aquele era o primeiro evento oficial desde o retorno da minha primeira viagem ao exterior, entre maio de 1871 e março de 1872. Naquela ocasião, visitei uma porção de nações, fui recebido por governantes, participei de jantares e cerimônias. Mas também frequentei restaurantes, museus, hotéis, parques e vi como as pessoas comuns viviam nesses lugares. Uma vida mais simples, porém, mais livre. Tive inveja daquela gente. E quando, meses depois, já de volta ao Palácio Imperial, eu estava fazendo as provas de um novo traje majestático, a vontade de ser mais livre me beliscou a alma. Eu vestia aquele mesmo figurino desde minha coroação, em 1841. Perdi a conta de quantas vezes o alfaiate tomou minhas medidas para reformar o traje ou fazer uma nova roupa exatamente igual à anterior. Enfim, naquele momento, cansei dessa formalidade toda e decidi que vestiria o traje majestático pela última vez. Passada a abertura da Assembleia, comuniquei minha decisão aos conselheiros do Império, que não se conformaram e tentaram me dissuadir da ideia, argumentando que um Imperador também se firma pelo traje. Para acabar com a discussão, cedi e decretei que só vestiria o traje majestático nas cerimônias de abertura e encerramento da Assembleia Geral. Nas demais ocasiões, eu vestiria o que quisesse, inclusive casaca e cartola. E assim tem sido.

– A casaca cai-lhe muito bem, é um traje elegante e moderno.

– Pois então, senhor Carvalhaes, capriche nesse esboço dos selos novos. Desejo ser lembrado pelos brasileiros tal como apareço neste retrato de barba branca, um governante maduro, ciente de suas responsabilidades e que, ao seu modo, desejou ventilar ares de modernidade à sua nação.


Conto originalmente publicado na coletânea “A roupa nova do Imperador”, da série Glorioso Império Brasileiro, em 2014.