Crónica Lisboeta (2001)

O primeiro diálogo que travei ao chegar em Lisboa, numa manhã fria de primavera, foi com o dono de uma banca de jornal. Eu tinha em mãos um papelzinho com o endereço de uma casa de câmbio e precisava saber como chegar ao local para trocar logo o dinheiro. Arrisquei pedir a informação ao senhor que lia distraidamente as manchetes do Diário de Notícias.

EU: “Por favor, o senhor sabe onde fica a avenida Duque de Loulé?”

SENHOR: “Sei.”

silêncio

EU: “E o senhor pode me dizer onde fica essa avenida?”

SENHOR: “Posso.”

silêncio

EU: “Então, como faço para chegar lá?”

SENHOR: “Pois sim, a senhorita deve descer a rua à frente até o largo onde está a estação Restauradores. Nesse local, pegue o metrô que passa pela estação Marquês de Pombal, na qual a senhorita deverá saltar. A avenida que procura está a uma ou duas quadras da saída principal.”

Foi minha primeira descoberta sobre os portugueses: na terrinha, a objetividade é ouro! Aos patrícios de Camões e Figo, sempre pergunte exatamente o que quer saber para não deixar margem a segundas ou terceiras respostas. O mesmo idioma que une brasileiros e portugueses pode, por vezes, afastar. Parodiando o tão citado verso de Fernando Pessoa, navegar é preciso, falar não é preciso. Isso porque ao falar não estamos fazendo uso de instrumentos de precisão como astrolábios, bússolas e mapas, que guiavam pelo mar afora os bravos navegantes de outrora. De um lado para outro do Atlântico, as palavras mudam de sentido, ganham novos usos, adaptam-se às circunstâncias. 

Esse falar impreciso é areia movediça como pude perceber nos nove dias que estive em Lisboa. Há ainda a questão do sotaque. De imediato, não é tão fácil entender o que os portugueses dizem, e eles também devem sofrer com o nosso jeito de falar. No primeiro dia, após a experiência na banca de jornal, tentei falar mais pausadamente, o que não adiantou. Em seguida, resolvi imitar o sotaque luso. Que ingenuidade! Essa estratégia não surtiu efeito igualmente e ainda me fez sentir ridícula. Acabei por relaxar e falar de qualquer jeito, com gíria e tudo. Se tivesse de repetir cinco, seis vezes a mesma frase, tudo bem. 

Durante a viagem anotei algumas curiosidades sobre a fala e a escrita à moda lusa. Lá, utiliza-se assento agudo nas palavras crônica, econômica e telefônica, entre outras. Não existe por que separado nas frases interrogativas. Mais grande (expressão que dói em nossos ouvidos) é aceito em vez de maior, quando se trata de tamanho. No que se refere aos comes e bebes, os cardápios de bares, restaurantes e pastelarias (que são as nossas confeitarias) mais confundem que esclarecem. Uma bica com areias, por exemplo, nada mais é que um café expresso forte acompanhado de sequilhos grandes. Quem fica em dúvida se quer para o almoço burras no forno, bifana ou algum tipo de enchido é porque não sabe se prefere comer bochechas de porco assadas, bife ou alguma lingüiça portuguesa, como alheira, morcela ou chouriço.

Confusões de linguagem à parte, além do bacalhau, dos azulejos, do vinho, do fado e da literatura, descobri durante a viagem outra grande referência portuguesa: as velhinhas. Impressionou-me a quantidade de senhoras idosas vestidas de preto e de birote na cabeça a arrastar suas bengalas por Lisboa. A explicação que ouvi de um gajo para tal fenómeno (segundo acentuação portuguesa) é a seguinte. Antes de morrer, o ditador Salazar congelou os aluguéis em Lisboa. O proprietário de imóvel antigo só poderia reajustar o valor depois que o inquilino morresse. Ou seja, quem tem na família uma avó ou bisavó locatária de alguma casa ou apartamento tirou a sorte grande e conserva sua antecessora em formol. Se a história contada pelo gajo é verdadeira ou não, desconheço. Só sei que essas velhinhas são citadas até nos fados. Tem um, em especial, Balada para uma velhinha, de Carlos do Carmo, que se tornou o meu favorito. Fala de uma velhinha num banco de jardim, com sua sombrinha. É tão triste, tão triste que acaba virando cômico. Ou cómico.

Como há muitas velhinhas vivendo na região central de Lisboa, conseguir um lugar vago nos bondes é uma dificuldade. Afinal, todos os bancos acabam sendo reservados para os idosos. Dizem que, por causa de lugar para sentar, é até comum ver briga de velhinhas dentro dos bondes, uma a tentar provar para a outra que tem idade mais avançada.

Tive a oportunidade de travar uma rápida conversa com uma dessas senhoras. Eu estava parada na calçada à espera do sinal de trânsito abrir para pedestres. Pois uma velhinha se aproximou, perguntando se eu poderia dar uma informação. Dias antes, a situação era inversa. Por essa razão, fiquei lisonjeada pela tal senhora não desconfiar que eu era uma turista brasileira solitária a perambular pelas ladeiras e ruelas de Lisboa. Imaginei que talvez ela quisesse saber as horas.

EU: “Pois sim, em que posso ajudá-la?”

SENHORA: “Se faz favor, para chegar à Livraria Bertrand devo seguir à esquerda ou à direita?” 

EU: “Infelizmente não posso ajudá-la. Não sei onde fica essa livraria…”

SENHORA: “Pois deveria saber! Como a menina, que está em idade de estudo, não sabe onde fica uma das livrarias mais tradicionais da cidade? É uma vergonha!”

Com os olhos arregalados e ainda absorvendo o que tinha acabado de ouvir, vi a tal velhinha se afastar com sua bengala, a resmungar e dar umas olhadelas enfezadas para o meu lado. Para não se meter em confusão em Lisboa, eu percebi que não bastava apenas fazer perguntas objetivas. Era necessário ainda ter respostas precisas para tudo… mesmo que você tivesse de inventá-las.