Diplomacia via postal

– Correio!

Pela fresta da cortina branca, Regina observou o carteiro se afastar ligeiro. Não procurou os chinelos embaixo do sofá e, descalça mesmo, saiu para pegar as cartas.

A caixinha metálica, pendurada no portão gradeado da garagem, protegia o saldo do dia: duas contas, uma propaganda de banco e um envelope branco, selado, carimbado, com seu nome e endereço manuscritos. Virou-o para ler o remetente.

– Chegou! – disse, numa confirmação aliviada.

Chaveou rapidamente a porta, atirou a correspondência no aparador, exceto o envelope branco. Com ele na mão, atravessou a sala, o corredor e entrou no quarto, onde havia uma escrivaninha de madeira quase encostada à janela, na direção oposta à cama. Regina parou em frente ao móvel, deixou a carta no centro do tampo envernizado, puxou a cadeira, sentou-se, abriu a pequena gaveta lateral e retirou dela outro envelope recebido dias atrás. Igualmente branco, de tamanho um pouco menor, com seu nome manuscrito.

Colocou-os lado a lado, ambos ainda fechados. Parecia não ter pressa em conferir os respectivos conteúdos. Contentava-se em admirá-los: sentir a textura dos papéis, analisar a cor das tintas das canetas com as quais seu nome personalizava os envelopes. Uma de azul intenso, claramente saída de uma esferográfica. A outra, preta, de escrita porosa.

Regina pegou a tesoura e, cuidadosamente, cortou a lateral esquerda de cada envelope. Retirou o conteúdo da primeira correspondência recebida: dois cartões postais exatamente iguais. Uma paisagem com mar ao fundo, algumas palmeiras baixas, uma construção semelhante a uma mesquita. Acre, era o que se lia na moldura superior da estampa. Regina sorriu, porque a imagem que tinha do nosso Acre, o brasileiro, não guardava semelhança alguma com aquele lugar homônimo, a Acre israelense. Cidade milenar, banhada pelo mar Mediterrâneo.

Ela deu mais uma boa olhada na imagem da velha cidadela murada e deixou os postais sobre a escrivaninha. Sacudiu, então, o envelope do Irã recém-entregue pelo carteiro. Do interior, caíram postais gêmeos. Fixou a vista na figura horizontal: ruínas de colunas claras, sob um céu de nuvens gris. Observando aquela paisagem desolada, de vestígios de outra civilização, pensou por que Manuel Bandeira, o poeta, queria tanto ir embora para aquela Pasárgada, se lá nem o palácio do rei era mais real.

Separou um cartão de cada, levantou-se e caminhou em direção à estante, ao lado da janela. Pegou uma fornida pasta azul, com as letras F-J grafadas em dourado na lombada. Nela, arquivava parte de sua coleção de postais estrangeiros.

Naquele mundo particular em que a ordem alfabética forjava as fronteiras entre os países, a Irlanda separava Israel do Irã. Para guardar o postal de Acre, que passaria a ser o segundo na ordenação (atrás apenas do cartão com a estampa da bandeira azul e branca israelense), Regina precisou mudar os demais de lugar. Sorriu, ao constatar que já tinha 17 postais israelenses, a maioria trocada com David, o remetente de uma das cartas. Sabia pouco desse rapaz, apenas que ele morava com os pais em Israel, estudava engenharia de computação e já tinha visitado o Brasil. Era o que dizia o perfil dele na comunidade virtual que reunia colecionadores de postais, como Regina. Por esse mesmo site, ela também conheceu Shadi, a remetente da outra correspondência, uma professora iraniana que sonhava em viajar pelo mundo.

Depois de guardar os postais, Regina voltou para a escrivaninha. Sentou-se e tirou da gaveta dois envelopes novos, daqueles com a borda verde e amarela. Endereçou um para David e o outro para Shadi. No do rapaz, colocou o cartão extra de Pasárgada que acabara de receber de Shadi, além de outro de Foz do Iguaçu. Já no envelope que estava endereçado à moça iraniana, encartou o postal da Acre israelense e também um das Cataratas, idêntico ao que seria enviado a David. Com cuidado, colou os envelopes.

– Pronto, agora só falta postar amanhã as cartas no correio.

Regina estava feliz. Afinal, havia sido dela a ideia de promover esse intercâmbio de cartões entre os três, depois de ler na comunidade da internet um comentário de David lamentando o fato de não ter como trocar postais com colecionadores do Irã. Isso porque simplesmente não há serviço de correio entre aquelas duas nações do Oriente Médio, impossibilitando um cidadão comum de enviar correspondência de Israel para o Irã, ou vice-versa.

Assim, num acerto que foge às tratativas da diplomacia tradicional, Regina usou o jeitinho brasileiro para conectar um israelense a uma iraniana. Com a ajuda dos Correios do Brasil, ela estava plantando uma sementinha de paz naquele pedaço do mundo que tanto carece de mais comunicação e entendimento entre os povos.


Conto publicado originalmente na antologia “Causos e Poesias”, do Concurso Literário Correios 350 anos, em 2013.