Filatelia, uma atividade analógica em tempos digitais

Há 175 anos, um procedimento aparentemente óbvio revolucionou o sistema de correio. A começar pelo da Inglaterra, país que criou o selo postal: um pedaço de papel monocromático ou colorido, com valor monetário impresso. Quando colado na frente de um envelope ou pacote, serve de recibo de pagamento pelo serviço de entrega daquele objeto. Antes dessa invenção, quem pagava pela correspondência era o destinatário, que simplesmente poderia se negar a receber a carta, deixando a administração postal no prejuízo.

O Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal como comprovante de pagamento, em 1º de agosto de 1843. Parece que D. Pedro II adorava novidades e quis logo implantar a invenção britânica no império que administrava. Essa é uma das muitas histórias ouvidas nas reuniões da Sociedade Philatelica Paulista, SPP para os íntimos, que acontecem aos sábados na sede própria da entidade, localizada no Largo do Paissandu, 51, centro da capital.

Quase um século coexiste naquele ambiente que ocupa a espaçosa cobertura do edifício. A decoração tem ares masculinos, com direto a busto e retratos do segundo imperador do Brasil moço, maduro e já de barba branca. O ambiente, a biblioteca, a fala das pessoas e o próprio ato de colecionar selos estão impregnados de século 20, período em que a filatelia tomou grande impulso, popularizou-se como hobby e ganhou regras. Já a contemporaneidade fica por conta dos smartphones dos sócios, pelo datashow utilizado nas palestras, pela página da SPP no Facebook e pela dúvida que vez ou outra anima as conversas. A internet pode acabar com a filatelia, uma vez que a circulação de cartas diminuiu nas últimas décadas?

“Na verdade, a internet ajuda e muito a filatelia. A rede mundial de computadores aproxima os colecionadores de diferentes nacionalidades. Depois do advento da internet, os filatelistas começaram a comprar, trocar e vender selos e envelopes no mundo inteiro, facilitando o intercâmbio. Eu mesmo encontrei muitas peças circuladas do Brasil para o exterior anunciadas na internet”, comenta o sócio número 1.604 da SPP, o advogado Dr. Reinaldo Jacob (“o sobrenome é de origem síria”), de 52 anos e poucos fios de cabelo branco, filiado à entidade desde 9 de maio de 2001.

A paixão de Jacob pelos selos é anterior ao seu ingresso na SPP. Começou no século passado, aos 14 anos, incentivado pelo pai. “Ele me dava as correspondências que recebia, eu cortava os selos, descolava na água, trocava os repetidos com os colegas. Naquela época, 8 em cada 10 colegas da escola colecionavam selos”, lembra. Para abastecer seus álbuns, ele comprava os lançamentos nas agências de Correios e, se queria algum selo diferente, de outro país, recorria às bancas da feira de domingo da Praça da República, outro ponto de encontro de colecionadores de selos na capital.  “A filatelia me auxiliou a ser mais organizado e a me interessar por pesquisa. Toda vez que caía em minhas mãos um selo de um país diferente, eu corria no atlas para ver onde era e descobrir mais informações sobre o local. Assim, adquiri um bom conhecimento de geografia e também de história, pois muitos fatos marcantes estão retratados em selos.”

Como escreveu o ensaísta e filósofo alemão Walter Benjamin, no livro “Rua de Mão Única”, “selos são cartões de visitas que os grandes Estados deixam no quarto das crianças”; tal qual Gulliver, o menino Reinaldo visitou o país e o povo de seus selos. Antes dos pedacinhos de papel coloridos ou monocromáticos, Jacob teve outra coleção, a de chaveiros, iniciada ainda na infância. “Mas não eram chaveiros de qualquer tipo. Colecionava apenas os de acrílico, mais difíceis de achar. Lembro bem do primeiro, um do posto Ipiranga, que era amarelo com um I azul no centro”, explica. Décadas depois, os chaveiros (“alguns já com sinais de ferrugem”) permanecem guardados em algum lugar do apartamento de dois quartos que divide com a esposa, a cachorrinha Belinha de raça shitzu, os 4 mil selos e 300 envelopes.

Parte dessa coleção de envelopes antigos brasileiros foi exposta na mostra “A Alma do Colecionador”, no Museu de Arte Sacra, ocorreu entre os dias 28 de março e 31 de maio, ao lado de 30 outras diferentes, como as de corujas, relógios, cachimbos, brinquedos raros, abacaxis e hipopótamos. Para o objetivo e direto Jacob, há apenas dois tipos de colecionador, independentemente do objeto de seu interesse. “Existe aquele que aprende a colecionar e o que já nasce colecionador. Eu já nasci colecionador. Sempre gostei de juntar coisas da mesma espécie”, revela. Depois que se filiou à SPP, ele viu sua coleção de selos dar um salto de quantidade e qualidade. Nas reuniões e palestras, adquiriu mais conhecimento, teve acesso a boletins e publicações, começou a participar de leilões e de exposições filatélicas e foi se especializando cada vez mais. “Comecei com selos comemorativos atuais do Brasil e retrocedi até a data de 1950. Quando completei, fui mais além e adquiri até o ano de 1900, ano em que foram lançados os primeiros selos comemorativos brasileiros. Decidi então me dedicar às variedades, curiosidades e erros de impressão, que hoje é a minha principal coleção, premiada em exposições nacionais e internacionais. Adquiri também provas e ensaios de selos e, mais recentemente, também acrescentei os envelopes. Percebe como o grau de loucura é escalonado? A coleção de envelopes é o último grau dessa loucura.”

E por falar em loucura, será que todo colecionador tem um parafuso a menos? Quem responde é a psicóloga e terapeuta analítico-comportamental Regina Wielenska, autora de artigos científicos sobre o colecionismo patológico. “Temos algum indício de patologia quando o padrão de comportamento do colecionador prejudica a própria vida ou a de terceiro, seja por prejuízos financeiros, desorganização do espaço físico, falta de ordem, acúmulo de sujeira, entre outros sinais externos. Nesses casos, o colecionador não sabe mais o que guarda, recolhe objetos até do lixo, não consegue se desfazer de nenhum item. A coleção inicial perde todo o sentido, transforma–se numa simples acumulação.”

A especialista cita que não ainda há um consenso entre os pesquisadores sobre as causas do colecionismo patológico, mas aponta algumas possibilidades. Pessoas com um histórico de solidão, tendência ao isolamento e dificuldade em manter uma vida social, correlacionados a um comportamento obsessivo-compulsivo, teriam uma predisposição a desenvolver um quadro de colecionismo patológico. “Esse comportamento é detectado por meio de entrevista com o paciente, que geralmente é levado ao consultório por um familiar, pois ele próprio não considera que tem um problema passível de tratamento. Ao contrário, ele se sente incompreendido pelos demais.” Por outro lado, colecionar também pode ser uma atividade saudável, como destaca a terapeuta. “Quando uma pessoa coleciona uma coisa específica, como miniaturas, bonecas, relógios, algum tipo particular de artesanato, entre outras inúmeras possibilidades, ela se torna uma conhecedora desse tipo de objeto, procura entender aquele universo. Sabe o processo de fabricação, quem são os comerciantes, consulta catálogos, segue regras, participa de leilões, gosta de exibir a coleção para os outros. O ato de colecionar se transforma em esporte, em entretenimento.”

Entretenimento, passatempo, terapia. Para o engenheiro civil Emanuel Santiago Silva, de 59 anos, membro da SPP há 5 anos, a filatelia é tudo isso, junto e misturado. Definindo-se como uma pessoa bem caseira e, “modéstia à parte”, muito organizada, ele passa horas e horas no fim de semana revendo seus selos, arrumando os álbuns, classificando o material que coleta de seus temas principais, aviação civil e Santos-Dumont. “É o meu herói brasileiro”, comenta ele, que na juventude sonhava em ser aviador, mas foi reprovado no exame oftalmológico de admissão para o curso de cadetes da Aeronáutica.   Parte do material que juntou sobre o Pai da Aviação será exposta pela primeira vez em Aracaju, numa mostra em homenagem ao Dia do Selo, 1º de agosto, data de lançamento da primeira emissão postal brasileira, o Olho de Boi. “Nunca tinha me interessado em montar algo para expor, pois gosto de fazer do meu jeito, incluo peças não filatélicas e não sigo totalmente as regras. Mas recebi esse convite e decidi participar. Estou animado!”, revela, com a voz tranquila e pausada.

Assim como citou o colega Reinaldo Jacob, o ingresso na SPP contribuiu para dar foco e incentivar Emanuel a montar suas coleções temáticas. Mas, ao contrário da maioria dos afiliados, o engenheiro não fala “ô, meu” e nem é paulista como a Sociedade Philatelica. É sergipano de nascimento e sotaque. As vindas esporádicas a São Paulo se devem ao tratamento que faz para controlar um melanoma, diagnosticado no final de 2008. Além da rotina de exames e consultas, aproveita os dias em terras paulistanas para passear ao lado da esposa, ir ao cinema, visitar exposições e frequentar as reuniões da SPP. “É uma distração, lá em Aracaju, onde resido, não faço nada disso”, diz.

O interesse pela filatelia começou aos 12 anos, no final da década de 1960. “Tinha um tio que colecionava selos. Quando ele foi estudar medicina em Salvador, deixou a coleção na casa de minhas tias. Eu aproveitava a ausência dele para, escondido, folhear aqueles álbuns e mexer nos selos. Me deliciava com tudo aquilo. Mas tentava deixar as folhas como encontrava, pois ele ficava bravo se percebia que alguém tinha fuçado onde não devia”. Numa viagem de férias ao Rio de Janeiro, Emanuel comprou o primeiro álbum para guardar os selos comemorativos do Brasil, que começou a colecionar antes de se interessar também pela filatelia temática, uma das divisões dessa atividade. “Comprei o álbum em 1969, sei o ano porque está anotado. Nas caixas de acrílico transparente, onde guardo os materiais de minhas coleções de selos, CDs e revistas, está tudo descrito na frente, o que facilita a organização e localização dos itens. Tenho mania de anotar tudo”, comenta o colecionador, que anda sempre com caneta e lapiseira penduradas no bolso lateral da camisa.

Depois dessa estadia em São Paulo, Emanuel ficará uns três meses longe da metrópole. Na terra natal, terá tempo de organizar todo o material que adquiriu nessa viagem, como os últimos lançamentos de selos comemorativos do Brasil comprados na Agência Filatélica D. Pedro II (esse imperador está em todas!), selos e cartões sobre aviação adquiridos de comerciantes, alguns livros (“sou viciado em leitura”) e quatro imagens de São Francisco de Assis, de quem é um fervoroso devoto. É a única coleção que não está agrupada num só espaço. Os santinhos estão espalhados abençoando cada canto da casa onde mora com a esposa e dois dos três filhos. Ao se despedir dos colegas filatelistas, Emanuel avisa que só voltará às reuniões da SPP em novembro, para novos exames de controle. Na bagagem, leva também o último exemplar do Boletim Informativo da Sociedade Philatelica Paulista, o de número 222, editado por Reinaldo Jacob, com 76 páginas, de periodicidade trimestral. E qual é o assunto de capa? Um estudo sobre os bilhetes postais de 20 réis, lançados entre 1883 e 1884, com imagens do onipresente D. Pedro II que, no seu tempo, também foi um colecionador de selos, outra informação que circula nas rodinhas de conversa de filatelistas.

Mas a matéria de destaque poderia ser outra, a que começa na página 12 do boletim, sobre as aulas de filatelia frequentadas por alunos do ensino fundamental do Colégio Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo. A atividade extracurricular é fruto de parceria recém-firmada entre a SPP e a instituição de educação, como o objetivo de estimular o interesse pela pesquisa, ampliar conhecimentos, desenvolver senso de organização e difundir a prática do colecionismo entre os estudantes. Um desafio e tanto para esse seleto grupo de senhores de cabelos grisalhos e brancos: fazer com que essa nova geração ultra conectada, que nunca recebeu carta na vida, se interesse pelo mundo analógico dos selos e não deixe a filatelia acabar.