O gentleman de Santa Cecília

Os vizinhos do quarteirão de cima são uma família forjada pelo acaso e não pelo genes. O mais velho deles, de suíças esbranquiçadas, é o avô. O filho, mulato claro, está sempre descalço e dorme mesmo com o sol do meio dia. A filha, muito magra e muito negra, é a rainha desse lar improvisado. Tem um companheiro, igualmente magro, com quem divide o esburacado colchão de solteiro. No mocó que construíram na metade da calçada com papelão, restos de madeira, tecidos e velharias, embaixo da pequena marquise de um prédio comercial que está para alugar, há ainda espaço para agregados e visitantes.

Desconfio que foram desapropriados pela ciclovia construída embaixo do Minhocão e tiveram que levar as tralhas a salvo das bikes. Encontraram aquele ponto vago, ali nas proximidades, e foram ficando. Há alguma organização e rotina no lugar. Tentam deixar as coisas ajeitadas, sem muita bagunça. Já os vi varrendo a calçada e jogando no cesto de lixo o que parecia ser os restos de uma refeição. Talvez com medo da crise hídrica, armazenam água em garrafões de 5 litros. Na hora de dormir, que pode ser qualquer hora, estendem os colchões na calçada. Um dos travesseiros que usam, já bem maltratado pelo tempo, foi presente meu. O avô recebeu e agradeceu.

Hoje, os quatro estão acordados e conversam entre si. A filha separa uma blusa para vestir e começa a se despir na frente de todos – familiares, pedestres e motoristas. Dá as costas ossudas para a rua e vira-se para a parede, na ilusão de privacidade. O companheiro vê e rapidamente estende um pano para proteger a amada dos olhares curiosos. Ela sorri e agradece seu homem, um gentleman.