O Verme Paulistano

Perguntaram-me o que acho do Minhocão, se deve ser demolido, virar parque ou acabar em pizza. Não tenho uma opinião formada sobre o assunto, para variar. Sei apenas que minha vida e o Elevado Costa e Silva formam quatro esquinas. A primeira é a do georreferenciamento, como um complemento de meu endereço.

– Onde você mora?
– Sabe o Minhocão? Então, a dois quarteirões dali.

Atravesso o próximo cruzamento em um automóvel. Como motorista, percorro agora a passarela elevada de asfalto. Eu gosto de dirigir no Minhocão, cortar caminho para ir ao Bixiga, ao Ibirapuera, ao aeroporto. Sem trânsito, é rapidão. Anos atrás, acreditem, tinha medo de passar de carro lá. Achava as pistas estreitas demais, o muro de proteção frágil demais. Dava-me um pouco de vertigem, uma certa aflição. Bobagem…

Deixo o carro na garagem e vou para o ponto de ônibus sob o elevado. É a terceira esquina. A mais feia delas. Escura, degradada, suja. Colorida com pixos, grafites, cartazes. Habitada por nóias, bêbados, desiludidos, que se escondem da vida nessa noite eterna e artificial. É onde o Minhocão é mais Minhocão, o verme gigante rasgando as entranhas desvairadas desta Paulicéia embrutecida. Enquanto espero passar o Praça Ramos ou o Paissandu, penso que esse Minhocão poderia, sim, acabar.

O quarto cruzamento é apenas imaginário. O elevado não existe mais, estamos no mesmo nível. É manhã de domingo, subo a pé ou de bicicleta a alça de acesso. Não vejo mais o Minhocão. Vejo outras coisas. Vejo meninos jogando futebol. Um pai de patins empurrando o bebê no carrinho. Um grupo de estudantes de arquitetura fazendo trabalho. Vejo fotógrafos amadores a capturar a fotogenia urbana. Uma família de bolivianos tomando o banho de sol permitido. Vejo amigos bebendo água de coco, bikers solitários ou em grupos, um cinquentão tatuado e sem camisa treinando corrida. Vejo uma peça de teatro encenada na janela do prédio vizinho. Uma quadrilha de festa junina. Vejo uma cãofraternização, uma performance artística, turistas gringos de Havaianas nos pés branquelos. Vejo vizinhos do bairro com as compras da feira, uma gravação de videoclipe. Vejo um mato verdejando no canteiro central, uma réplica da “Dança”, de Matisse, pintada no asfalto. Vejo uma turma fazendo um piquenique, uma galera dançando numa balada de black music, dois carinhas fumando maconha e discutindo política. Vejo tudo isso, vejo vida, não vejo o Minhocão.

Mas ele está lá, na expectativa de ser demolido, virar parque ou continuar como é. Uma estrutura de cimento e asfalto que leva e traz pessoas, carros, motos, ambulâncias, ilusões, rotinas, pressas, mercadorias, encontros e alternativas.