Pedido de desculpas

metro1 (1)

Dia útil, 6 e 38 da tarde, Estação Barra Funda. No vai e vem da massa humana espremida entre catracas, plataformas e pilastras, o ordinário aconteceu. Eu pisei no pé de uma mulher. Imediatamente pedi desculpas. Ela me olhou, e eu vi a fúria iluminar sua face. Os lábios trêmulos, a testa franzida, os dentes cerrados. Reforcei o pedido:
– Desculpe-me, foi sem querer.

A mulher baixou os olhos e me xingou de forma chula, aos gritos. Os palavrões me assustaram. Houve um princípio de tumulto, alguns passantes acharam que era uma briga. Eu estava atrapalhando a circulação, mas não conseguia dar um passo à frente. Também não tinha capacidade de formular uma resposta digna às grosserias que ouvia. Era uma estátua muda que só pensava como era possível uma senhora de meia idade, cabelos levemente grisalhos e bem penteados, vestindo roupa social e usando uma discreta correntinha dourada no pescoço ter a boca tão suja. Foi então que percebi o agravante da situação. Eu tinha pisado no pé de uma deficiente física, que mancava de uma perna e usava uma bengala como apoio. Ainda xingando, ela deu as costas para mim e se arrastou num andar claudicante, mas decidido, em direção à escada rolante.

Mas, e o meu pedido de desculpas? Ela não podia me soterrar de impropérios e ir embora sem aceitar a sinceridade do meu arrependimento e não me perdoar pelo incidente culposo. Sai da imobilidade e fui atrás da mulher manca.

– Senhora, desculpe-me se pisei no seu pé, eu não tive a intenção, está muito cheio, tem muita gente, eu não vi.
– O que é isso, você está me seguindo? Me deixe em paz!

E os xingamentos recomeçaram. Mais violentos ainda.
– O que você quer, sua louca? Que eu te desculpe? Estou cansada de ser pisada todo dia, atropelada, empurrada, espremida. Como você não me viu? Eu não sou invisível.
A boca espumava, os olhos quase saltavam das órbitas.

Foi então que entendi que não era apenas a mim que ela não perdoava. A mulher manca tinha contas a acertar com a humanidade. O pisão no pé serviu de estopim para ela extravasar uma raiva acumulada há tempos. Eu até imaginava as dificuldades diárias a serem superadas por ela em razão da deficiência física e compreendia sua revolta. Mas ainda assim eu merecia o perdão daquela mulher. Não apenas pela sinceridade do meu pedido de desculpas, reiterado diversas vezes, como também pelos meus bons antecedentes e comportamento exemplar de cidadã que preza a obediência civil, a paz e o entendimento entre os povos.

Olhando fixamente naqueles olhos em cólera, eu repeti com calma e firmeza, interrompendo a saraivada de palavrões:
– Senhora, desculpe-me. Por favor, desculpe-me.

A mulher manca emudeceu. Desviou a vista por alguns segundos. Levantou o rosto e voltou a me mirar. Sua expressão estava menos dura. Os gritos deram lugar a uma voz rouca e cansada.
– Você quer que eu te desculpe? Eu te desculpo, está bem? Eu te desculpo. Agora não venha mais atrás de mim, deixe eu seguir meu caminho.

Acompanhei com a visão ela se afastar mancando. Com custo, a mulher se encaixou na fila para entrar na escada rolante que descia à plataforma de embarque. Vi ainda quando o metrô chegou, as portas se abriram, e a manca foi engolida pela pororoca humana que a arremessou vagão adentro. Minutos depois, na mesma plataforma, a vítima da pororoca era eu.