Preto ou marrom?

Há dias apareceu um vira-lata na esquina. Preto ou marrom? De tão encardido, é difícil saber a cor original. Geralmente quando eu passo pela calçada, ele dorme com a cabeça encostada na soleira do bar. Mas hoje o cão está desperto e sacode o rabo, em posição de alerta. Parado na bifurcação, ele olha fixamente para algum ponto da outra rua. Tento descobrir o que atrai sua atenção. De repente, solta um latido. Seco, agudo, ansioso. Vejo, então, o motivo de seu interesse canino: um grupo de pets conduzido pelo passeador uniformizado. O rapaz segura as guias com firmeza, ciente do seu métier. Conto um, dois, três, quatro, cinco cachorros de porte médio e raças variadas, incluindo um SRD.

– Au! Au! Au! – ladra o totó, buscando a atenção de seus supostos pares.

Os pets o ignoram, lançando-o na invisibilidade a que um homeless canino ou humano está fadado a viver. Só que não. O cachorro da esquina insiste e começa a seguir a esnobe matilha. Anda lado a lado com eles, forjando uma convivência. E começa a imitá-los, deixando em suspenso sua liberdade vira-lata. Se os pets param para cheirar o matinho do canteiro, ele vai lá e mete o focinho também. Se fazem xixi no poste, ele acompanha. Se dois ou três deles latem para o gato que espreguiça na beirada da janela, o totó engrossa o coro. E assim, por três quarteirões e meio, enquanto dura o passeio burocrático dos pets, o cão preto ou marrom experimenta a perigosa e ilusória sensação do pertencimento.

(Baseado em fatos reais. Imagem meramente ilustrativa. No animals were harmed during this writing.)