Vidas tangentes

Riscando o azul, um avião. A manhã está clara, ausência de nuvens no céu. Os raios de sol atravessam as copas do arvoredo, manchando o gramado mal cuidado. Há sujeira e abandono por toda parte. Copos plásticos, restos de comida, pontas de cigarro misturam-se ao barro, às formigas, ao mato crescido.

As árvores estão dispostas em círculo formando uma espécie de cerca viva. Na clareira interna, um poste procura disfarçar a escuridão quando a noite cai. Ao redor dele, meia dúzia de bancos de cimento lembra uma estranha escultura. Há ainda na praça um ponto de ônibus (principal motivo de movimentação humana no lugar), um carrinho de pipoca e, esquecida em um canto, uma banca de jornal e revista.

– Manhê, compra pipoca? O pipoqueiro acabou de fazer… Compra, vai?

– Já disse que não! E pare de chorar senão vai ter, ouviu?

“Começou cedo hoje. Todo dia é a mesma lengalenga. A fila do ônibus, o menino chorando, aquele imprestável que nem um empreguinho qualquer consegue. O vizinho até que falou de uma vaga como auxiliar de pedreiro, mas o infeliz deu de ombros. Ah, se eu pudesse, juro por Nossa Senhora Aparecida que mudava de vida. Pegava aquele avião lá em cima e ia me embora daqui. Sumia do mapa, desaparecia por esse mundão. Mas, e aí, o que é que eu ia fazer, meu Deus do céu, com marido e filho para sustentar? Largar os dois é que não é direito. Pelo jeito, esse chorão puxou ao pai. Imprestável e manhento como aquele traste. Nem para me ajudar em nada eles ajudam. Esse aí só pensa em brincar. Brincar e comprar. Também, que culpa tem o pobrezinho se vê as coisas na televisão? Ele quer ter as coisas que nem os meninos ricos. O duro é que ele não entende que a gente é pobre mesmo de maré-de-si e fica chorando aí. Mas se eu fizer as vontades dele – hoje pipoca, amanhã chocolate – no fim do mês não tem dinheiro para o feijão. Daí quero ver só. Vai ser choro é de fome. Será que aquela mulher da vida ali na esquina tem tanto problema assim? Não! Ah, claro que não, a vida dela é diferente. Ela é mulher-dama, dorme com os cabras por dinheiro, não por obrigação. O ruim são as doenças. Mas, pelo menos, ela ganha o dinheirinho próprio, não tem que dar satisfação para ninguém. Nem para marido encostado nem para filho chorão. É, porque ela não tem cara de mãe não. Olha só, dá até para ela comprar umas roupas finas, da moda. Aposto que essa saia rubi é de seda. Eu não sei o que é roupa nova desde que pari esse moleque. São sempre essas peças surradas, que até já devem saber pegar sozinhas o ônibus para a Lapa. Essa dona? Pelo contrário! Ela deve andar com uns grã-finos. Por isso se arruma assim, na estica. Vai que um dia ela conhece um rapagão cheio da gaita e casa com ele. Parece enredo de novela, mas acontece sim. Já vi até um caso assim no noticiário. Ah, mas esse menino é mesmo uma peste!”

– Moço, quanto custa o saquinho pequeno de pipoca?

– É um real.

– Me passe um com pouco sal.

– Seu troco, dona.

“Em que parte eu estava mesmo? Ah… Se eu pudesse pegar aquele avião lá em cima e voltar para minha terrinha… Nunca viajei de avião. Deve ser uma gostosura. Fazer o quê se a gente não pode? Queria era voltar lá rico. Ia adiantar nada não voltar desse jeito. Até que dá dando para sobreviver com as pipocas. Mas não larguei painho e mainha para ser pipoqueiro. Queria era estudar e ser doutor advogado, saber das leis e ser importante. Daí eu ia casar com uma moça bonita e ter um monte de molequinho. Mas nenhum ia ser chorão feito esse aí. Se pelo menos eu tivesse uma namorada, uma morena para chamegar… Não resolveria minha vida mas, pelo menos, sentiria menos solidão. Está certo que tem a Ritinha, ela até dá moral para mim. Mas é só eu olhar para as pernas dela que desando a rir. Vai ter perna torta assim no inferno, sô! Queria uma mulher como aquela ali. Bonita, da cabeleira loura e gostosona. Pena que é mulher da vida. Se não fosse, casava com ela. Juro que casava. Mas sei que não fica direito se juntar com uma mulher da vida. Acho que não ia agüentar as gozações. Imagine o falatório. O pior é que ela vem sempre comprar pipoca. Fico sem graça que nem menino mijão. É melhor quando ela fica lá longe, na esquina. Assim posso ficar olhando para a formosura dela, só imaginando as coisas, sem ela perceber. Ave, cadê o avião? Ele é tão rápido que já o perdi de vista. Para onde será que está indo?”

– Moço, me dá um saquinho de pipoca? Um bem caprichado, por favor.

– Quer sal?

– Só um pouco. Obrigada.

– De nada.

“Esse cara é banana mesmo. Lesado. Nem percebe que dou o maior mole. Putz, um carro parou na Jussara. Caraca, se não tivesse saído do ponto para comprar pipoca, o cliente seria meu com certeza. Por que é que tenho de ir comprar pipoca a toda hora? Engordo, gasto dinheiro, perco cliente para as colegas, e o infeliz nem dá uma olhadinha para mim. Será que ele tem preconceito? Bem que quando estou de longe, ele me dá umas boas olhadas. Vagabundo! Tudo bem, não preciso exagerar tanto… Olha só que lindinho que ele está agora. Será que está pensando em mulher? Não, não deve ser isso, acho que está com pensamento na família, lá em algum canto da Bahia. Claro, ele tem a maior cara de baiano. Nada contra, acho até que a gente faz um parzinho legal. Putz, sem brincadeira, se a gente se casasse, seria dez! Largava essa vida, teria uma casa para cuidar e um maridinho fofo. Depois, viriam os filhos, um bando deles. Aposto que não ficaria caidona como aquela ali na fila do ônibus. Imagine! Mesmo depois de parir uma dúzia, ficarei inteirinha. E além do mais, nunquinha ia tratar meus filhotes daquele jeito tosco. Aonde é que já se viu ficar negando uma mísera pipoquinha para o garoto? Aliás, a pipoca está uma delícia. Pensando bem, se me casasse com o pipoqueiro nem ligaria de usar essas roupinhas bregas e surradas da mulher da fila. Cuidaria com o maior carinho da minha casa, do meu marido, dos meus filhotes. Seria dez mesmo! Para ajudar, poderia fazer uns docinhos para vender no carrinho de pipoca. É, porque puta também sabe cozinhar. Quando juntássemos uma graninha, daria para abrir um negócio. Um bar, por exemplo. Teríamos uma boa freguesia, as coisas prosperariam e, quando a gente menos percebesse, estaríamos indo para a Bahia. De avião, é claro. E lá na cidade da família dele poderíamos abrir outro bar ou até um restaurante. Demais! E, só que ele não está nem aí com a cor da chita. O tempo vai passando, vou saindo com a homarada. Daqui a pouco estarei mais caída que a dona da fila. Ai credo! Droga, a pipoca acabou…”

– Oi, gatona. Quanto é o programa?

Não se vê mais a sujeira nos canteiros. Nem o ônibus que chega ou o Vectra preto que sai. Tão pouco se distingue o carrinho de pipoca e a banca de jornal esquecida num canto da praça. Foi tudo misturado, assim como a lama, as formigas e o lixo. As árvores em círculo, o poste e os bancos são uma coisa só, indivisível.

O que mal se enxerga é apenas um ponto meio esverdeado, perdido. Praticamente imperceptível, mas real. Ele é um dos infinitos pontos do plano e fora da reta que o avião continua riscando no azul, rumo a qualquer lugar.


Texto originalmente publicado na Antologia de Contos – Prêmio Historiador Professor Francisco Cézar Palma de Araújo (Xico Experiência), organizada pela Associação de Escritores de Bragança Paulista – ASES, em 2006.