Equilibrista

“Como eu estou me sentindo, eles me perguntaram. Aliviada, muito aliviada. Parece que tiraram das minhas costas um peso do tamanho do mundo. Fazia tempo que não me sentia assim, aliviada. No fundo, aconteceu o que eu mais queria e não tinha coragem de admitir. Eu queria parar. Colocar um ponto final. Dizer: chega, basta, acabou. Era por esse motivo que não me olhava mais no espelho. Não queria ver que estava prestes a entregar os pontos. Orgulho, puro orgulho. Se continuava, era por orgulho. Você se sente superior, inteligente, sem limites, uma supermulher. Pois eu não me arrependo de nada, não tenho culpa se as pessoas são burras, gananciosas e caem em golpes ou se estão desesperadas e querem uma carteira falsa ou se livrar das multas. Elas é que me usaram e não o contrário. Usaram minha inteligência, meu traquejo, minhas habilidades para manipular as situações e, principalmente, minha coragem. Sou uma supermulher, uma heroína para esses imbecis, fracos e covardes. Merecia uma estátua e não uma algema. Mas isso é outra história. As algemas vão, na verdade, me libertar desses protegidos indesejados. Não vou fugir nem salvar mais ninguém, só a mim. Amanhã, quando acordar, vou poder me olhar no espelho, sem medo, raiva ou remorso. Os dias de corda bamba farão parte de um passado. Amanhã, primeiro dia do meu futuro, estarei com os pés no chão, a salvo. Aliviada.”

***

– Mãe, a senhora não imagina o que aconteceu hoje lá no meu serviço.

– O que, minha filha?

– Teve polícia prendendo uma freguesa, pense que confusão.

– Nossa, que coisa, hein? E era turista ou gente local?

– Turista não era, uma mulher madura, estava com os filhos, foi uma choradeira dos pobres. Mas ela ficou firmona, não chorou, não gritou, só suspirou e abraçou a família.

– E como foi? Era polícia de farda que prendeu?

– Não era de farda não, era um policial desses de roupa comum, bonito até. Tinha outros espalhados no mercado e lá fora, no estacionamento, depois que eu vi. Ela estava na fila ao lado da minha, passando as compras no caixa da Rosa, sabe a Rosa, aquela que já veio aqui em casa, que teve gêmeos no ano passado?

– Sim, lembro dela. E a prisão, como foi?

– Então, a mulher já ia pagar as compras, os filhos estavam embalando as mercadorias, a Rosa tinha acabado de perguntar se era crédito ou débito quando um policial, apontando a arma, gritou para a mulher que ela estava presa. Ele deu o bote na hora certa, ali ela não tinha como sair, na frente estava o carrinho bloqueando e atrás, o pessoal da fila com mais carrinhos.

– Mas o polícia falou por que estava prendendo a infeliz?

– Acredita que não? Só bem mais tarde o gerente comentou que ela era uma procurada da polícia lá da capital, estava morando há um tempo aqui na cidade. Parece que aplicava uns golpes nas pessoas, vendia documento falso, essas coisas.

– É o que eu sempre falo, minha filha, o negócio é andar na linha.

***

Mas vejam só essa história que saiu no jornal:

Andava a polícia atrás de uma mulher perigosa, uma das mais procuradas.

Reviraram o país no seu encalço durante mais de 10 anos.

Localizaram seu paradeiro graças a uma multa de trânsito. Ironia.

Especialista em sumir com as infrações de trânsito alheias, ela foi multada.

Na tocaia, passaram dias. Era uma pista quente, coisa do destino.

Encontraram a foragida fazendo compras no mercado, disfarçada de dona de casa.

***

FIM DA LINHA PARA ESTELIONATÁRIA FUGITIVA

Golpes com cheques, cartões bancários e empréstimos, venda de carteiras de habilitação falsas, liberação de multas, estelionato, falsidade ideológica, desacato a autoridade, corrupção passiva e ativa. Esses são alguns dos crimes pelos quais a ex-funcionária pública Marlene X., de 57 anos, responde a 219 processos, que geraram 21 mandados de prisão. Já acumulou pena de mais de cem anos de condenação, tornando-se uma das pessoas mais procuradas pela Polícia Civil. Após 12 anos foragida, no último domingo, ela foi presa quando fazia compras, ao lado dos filhos, em um supermercado no litoral, onde morava havia alguns anos.

Segundo o delegado Nicolau de Miranda, uma multa de trânsito no nome da estelionatária ajudou os policiais a localizarem a cidade onde ela se escondia. “Foi um trabalho de inteligência e perseverança dos investigadores, que juntaram as pistas como se fosse um quebra-cabeça”, explicou. Para finalmente prendê-la, a Polícia Civil preparou uma operação especial, imaginando que Marlene tentasse escapar mais uma vez quando avistasse os policiais. “Mas ela não ofereceu resistência. Disse, inclusive, estar aliviada com a prisão, pois não aguentava mais fugir”, comentou o delegado.

(da redação)

 

 

O gentleman de Santa Cecília

Os vizinhos do quarteirão de cima são uma família forjada pelo acaso e não pelo genes. O mais velho deles, de suíças esbranquiçadas, é o avô. O filho, mulato claro, está sempre descalço e dorme mesmo com o sol do meio dia. A filha, muito magra e muito negra, é a rainha desse lar improvisado. Tem um companheiro, igualmente magro, com quem divide o esburacado colchão de solteiro. No mocó que construíram na metade da calçada com papelão, restos de madeira, tecidos e velharias, embaixo da pequena marquise de um prédio comercial que está para alugar, há ainda espaço para agregados e visitantes.

Desconfio que foram desapropriados pela ciclovia construída embaixo do Minhocão e tiveram que levar as tralhas a salvo das bikes. Encontraram aquele ponto vago, ali nas proximidades, e foram ficando. Há alguma organização e rotina no lugar. Tentam deixar as coisas ajeitadas, sem muita bagunça. Já os vi varrendo a calçada e jogando no cesto de lixo o que parecia ser os restos de uma refeição. Talvez com medo da crise hídrica, armazenam água em garrafões de 5 litros. Na hora de dormir, que pode ser qualquer hora, estendem os colchões na calçada. Um dos travesseiros que usam, já bem maltratado pelo tempo, foi presente meu. O avô recebeu e agradeceu.

Hoje, os quatro estão acordados e conversam entre si. A filha separa uma blusa para vestir e começa a se despir na frente de todos – familiares, pedestres e motoristas. Dá as costas ossudas para a rua e vira-se para a parede, na ilusão de privacidade. O companheiro vê e rapidamente estende um pano para proteger a amada dos olhares curiosos. Ela sorri e agradece seu homem, um gentleman.

Feriado

Era uma terça-feira. Descubro agora consultando um calendário antigo. 12 de outubro de 1982.
O primeiro Dia das Crianças do qual eu me lembro. Acordei mais cedo que de costume, animada com o passeio programado pelo meu pai para o feriado: ver aviões de verdade, grandões, no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Uma novidade para meus olhinhos que, ate então, só tinham avistado uns teco-tecos que mais pareciam brinquedo de gente grande.
Uma segunda razão aumentava o entusiamo: a ideia do feriado em si. Naquele 12 de outubro de 1982 entendi o que significava um feriado. Um dia de folga da escola, uma agradável pausa na rotina, para passear com os pais, descansar e se divertir. “Mas hoje é feriado por que é dia das crianças?” Meu pai ou minha mãe – não lembro quem – me explicou que aquele dia era feriado em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, a santa padroeira do Brasil, um feriado novo, criado dois anos antes, quando o papa visitou o país em 1980.
Eu lembrava da visita do papa, que usava roupa branca de padre e falava português engraçado. Fiquei contente com a explicação, mas, momentos depois, uma dúvida me abateu: “não era feriado quando vocês eram crianças? E nem quando vocês casaram? Que triste!”
A comemoração de aniversário de 15 anos de casamento de meus pais era o terceiro motivo daquele passeio familiar. Na Belina II prateada, levei junto o meu presente de Dia das Crianças, uma boneca Sorvetinho, de cabelos de lã cor-de-rosa, que se tornou a minha favorita da infância. Queria que chegássemos logo a Campinas, nosso destino, uma cidade que me encantava com suas grandes avenidas, hipermercado, loja de departamento e café expresso, que tomei lá pela primeira vez. Naquela altura da minha vida, já tinha um fascínio precoce pela urbanidade.

Pizza

O pedido? O mesmo de sempre, uma pizza grande Napolitana, a favorita de minha mãe. Aquela borda com bolhas irregulares meio tostadinhas e pinceladas com molho ralo de tomate me encantava. O que significava aquela comida misteriosa, completamente diferente da servida em casa? Eu não conseguia mastigar direito o queijo derretido, a massa meio dura desafiava os meus dentinhos de leite. Mas ir à pizzaria com meus pais, sentar no cadeirão e sentir aquele cheiro bom de lenha queimada era um programão para os meus quase 3 anos de idade.

38 anos depois, o pedido é outro: uma 4Stagioni, de 32 centímetros de diâmetro. Paro de conversar e de mexer no celular, quase paro de respirar. A pizza chega, iluminando a mesa. Ouço um rufar de tambores que me autoriza: ATACAR!!

Cravo uma mordida impiedosa na fatia de Margherita. A massa fina e crocante não desafia mais os meus dentinhos. Sinto o leve queimado da borda e as diferentes texturas da base e do recheio. Fecho os olhos e me entrego à volúpia causada pelo molho de tomate. Sou capaz de bebê-lo puro, como um néctar. É um Molho de Tomate digno de capitulares e reverências. Como cobertura, a mozzarela não sobra nem falta, cumpre perfeitamente seu papel coadjuvante no equilíbrio de sabores. E a folhinha de manjericão fresco dá o toque aromático e verde que, segundo a lenda, representa uma das cores da bandeira do meu outro país.

Calorias, gordura saturada, licopeno, glúten, sódio? Não, os componentes daquela fatia são outros: poesia, conforto, mistério, perfeição e encantamento.

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Filatelia, uma atividade analógica em tempos digitais

DSC_0049 Há 175 anos, um procedimento aparentemente óbvio revolucionou o sistema de correio. A começar pelo da Inglaterra, país que criou o selo postal: um pedaço de papel monocromático ou colorido, com valor monetário impresso. Quando colado na frente de um envelope ou pacote, serve de recibo de pagamento pelo serviço de entrega daquele objeto. Antes dessa invenção, quem pagava pela correspondência era o destinatário, que simplesmente poderia se negar a receber a carta, deixando a administração postal no prejuízo.

O Brasil foi o segundo país do mundo a adotar o selo postal como comprovante de pagamento, em 1º de agosto de 1843. Parece que D. Pedro II adorava novidades e quis logo implantar a invenção britânica no império que administrava. Essa é uma das muitas histórias ouvidas nas reuniões da Sociedade Philatelica Paulista, SPP para os íntimos, que acontecem aos sábados na sede própria da entidade, localizada no Largo do Paissandu, 51, centro da capital.

Quase um século coexiste naquele ambiente que ocupa a espaçosa cobertura do edifício. A decoração tem ares masculinos, com direto a busto e retratos do segundo imperador do Brasil moço, maduro e já de barba branca. O ambiente, a biblioteca, a fala das pessoas e o próprio ato de colecionar selos estão impregnados de século 20, período em que a filatelia tomou grande impulso, popularizou-se como hobby e ganhou regras. Já a contemporaneidade fica por conta dos smartphones dos sócios, pelo datashow utilizado nas palestras, pela página da SPP no Facebook e pela dúvida que vez ou outra anima as conversas. A internet pode acabar com a filatelia, uma vez que a circulação de cartas diminuiu nas últimas décadas?

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Preto ou marrom?

Há dias apareceu um vira-lata na esquina. Preto ou marrom? De tão encardido, é difícil saber a cor original. Geralmente quando eu passo pela calçada, ele dorme com a cabeça encostada na soleira do bar. Mas hoje o cão está desperto e sacode o rabo, em posição de alerta. Parado na bifurcação, ele olha fixamente para algum ponto da outra rua. Tento descobrir o que atrai sua atenção. De repente, solta um latido. Seco, agudo, ansioso. Vejo, então, o motivo de seu interesse canino: um grupo de pets conduzido pelo passeador uniformizado. O rapaz segura as guias com firmeza, ciente do seu métier. Conto um, dois, três, quatro, cinco cachorros de porte médio e raças variadas, incluindo um SRD.

– Au! Au! Au! – ladra o totó, buscando a atenção de seus supostos pares.

Os pets o ignoram, lançando-o na invisibilidade a que um homeless canino ou humano está fadado a viver. Só que não. O cachorro da esquina insiste e começa a seguir a esnobe matilha. Anda lado a lado com eles, forjando uma convivência. E começa a imitá-los, deixando em suspenso sua liberdade vira-lata. Se os pets param para cheirar o matinho do canteiro, ele vai lá e mete o focinho também. Se fazem xixi no poste, ele acompanha. Se dois ou três deles latem para o gato que espreguiça na beirada da janela, o totó engrossa o coro. E assim, por três quarteirões e meio, enquanto dura o passeio burocrático dos pets, o cão preto ou marrom experimenta a perigosa e ilusória sensação do pertencimento.

(Baseado em fatos reais. Imagem meramente ilustrativa. No animals were harmed during this writing.)

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O Verme Paulistano

Perguntaram-me o que acho do Minhocão, se deve ser demolido, virar parque ou acabar em pizza. Não tenho uma opinião formada sobre o assunto, para variar. Sei apenas que minha vida e o Elevado Costa e Silva formam quatro esquinas. A primeira é a do georreferenciamento, como um complemento de meu endereço.

– Onde você mora?
– Sabe o Minhocão? Então, a dois quarteirões dali.

Atravesso o próximo cruzamento em um automóvel. Como motorista, percorro agora a passarela elevada de asfalto. Eu gosto de dirigir no Minhocão, cortar caminho para ir ao Bixiga, ao Ibirapuera, ao aeroporto. Sem trânsito, é rapidão. Anos atrás, acreditem, tinha medo de passar de carro lá. Achava as pistas estreitas demais, o muro de proteção frágil demais. Dava-me um pouco de vertigem, uma certa aflição. Bobagem…

Deixo o carro na garagem e vou para o ponto de ônibus sob o elevado. É a terceira esquina. A mais feia delas. Escura, degradada, suja. Colorida com pixos, grafites, cartazes. Habitada por nóias, bêbados, desiludidos, que se escondem da vida nessa noite eterna e artificial. É onde o Minhocão é mais Minhocão, o verme gigante rasgando as entranhas desvairadas desta Paulicéia embrutecida. Enquanto espero passar o Praça Ramos ou o Paissandu, penso que esse Minhocão poderia, sim, acabar.

O quarto cruzamento é apenas imaginário. O elevado não existe mais, estamos no mesmo nível. É manhã de domingo, subo a pé ou de bicicleta a alça de acesso. Não vejo mais o Minhocão. Vejo outras coisas. Vejo meninos jogando futebol. Um pai de patins empurrando o bebê no carrinho. Um grupo de estudantes de arquitetura fazendo trabalho. Vejo fotógrafos amadores a capturar a fotogenia urbana. Uma família de bolivianos tomando o banho de sol permitido. Vejo amigos bebendo água de coco, bikers solitários ou em grupos, um cinquentão tatuado e sem camisa treinando corrida. Vejo uma peça de teatro encenada na janela do prédio vizinho. Uma quadrilha de festa junina. Vejo uma cãofraternização, uma performance artística, turistas gringos de Havaianas nos pés branquelos. Vejo vizinhos do bairro com as compras da feira, uma gravação de videoclipe. Vejo um mato verdejando no canteiro central, uma réplica da “Dança”, de Matisse, pintada no asfalto. Vejo uma turma fazendo um piquenique, uma galera dançando numa balada de black music, dois carinhas fumando maconha e discutindo política. Vejo tudo isso, vejo vida, não vejo o Minhocão.

Mas ele está lá, na expectativa de ser demolido, virar parque ou continuar como é. Uma estrutura de cimento e asfalto que leva e traz pessoas, carros, motos, ambulâncias, ilusões, rotinas, pressas, mercadorias, encontros e alternativas.

verme

Cacos Reunidos

O rádio está ligado. Ouço Jamie Cullum cantar “I’ll make you a mixtape that’s a blueprint of my soul”. Houve um tempo em que eu gravava mixtapes para amigos, parentes, amores e também para consumo próprio. Chamava-as de fitinhas. Ficava horas pensando na ordem das músicas, somando os tempos para que a seleção coubesse nos 30 ou 45 minutos de cada um dos lados. Era um trabalho artesanal, com boas doses de curadoria e paciência. “A sparkling jewel of manual labour.”

Escolher os LPs (e depois os CDs), ver quais faixas combinavam com a temática da fita, colocar a agulha no espacinho do vinil entre uma música e outra, rezar para ela não derrapar nessa manobra enquanto apertava o rec/play, ficar atenta ao fim da canção para pressionar o stop e recomeçar toda a operação com a próxima da lista. Evitava as versões ao vivo, pois detestava o corte seco das palmas. Ah, eu também produzia a “capa” da fita, fazia umas colagens personalizadas de acordo com a pessoa que a receberia de presente.


Além de gravar, eu também ganhava fitas com compilações caseiras. Naqueles tempos analógicos, era uma ótima maneira de conhecer novas músicas, bandas e artistas. Nessas fitinhas, eu ouvi pela primeira vez Nina Simone, Ella Fitzgerald, David Bowie, Led Zeppelin, Joy Division, Mutantes, Echo&The Bunnymen e muitos outros que ainda me fazem companhia décadas depois. Mas agora quem define a ordem do meu desfile musical particular é o modo aleatório do tocador de mp3.


Numa rápida escavação arqueológica em minha sala encontro algumas fitas escondidas no fundo do rack. Sobreviveram a mudanças de casa e arrumações de fim de ano. Não tenho mais onde escutá-las e redescobrir os sons que as tiras magnéticas ocultam. “Para ouvir no ônibus vol. 1”, diz uma delas. “Músicas para momentos oportunos 3” é o título de outra. Uma está sem caixinha. Na etiqueta do lado B, em tinta azul, está escrito apenas “Cacos reunidos”. O que eu quis dizer com isso? Não faço ideia. Se as mixtapes podem ter alguma coisa a ver com a nossa alma, como canta o Jamie Cullum, nem quero imaginar o estado da minha quando gravei essa K7.

fitinhas

A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo

Era uma vez uma garotinha muito curiosa. Chamavam-na Maria Perguntadeira, tamanha era sua curiosidade pelas coisas do mundo.

– O que, quem, quando, como, onde, por quê? – disparava a Perguntadeira em todas as direções.

Enquanto não conseguia uma explicação satisfatória, Maria saía perguntando aos pais, aos vizinhos, ao padre, ao farmacêutico e até aos passarinhos.

– Os passarinhos me ouvem e respondem. Não entendo as respostas porque ainda não aprendi Passarinhês – explicava a garotinha.

Todos os dias Maria observava o pôr-do-sol da janela do seu quarto. Quando ainda sobrava um resto de luz no horizonte, gritava para o rei dos astros:

– Por que você vai embora antes da Noite chegar?

Resposta nenhuma Maria ouvia. Só o vento assoviando. Uma bela tarde, porém, a garota ouviu mais que barulho de vento. Uma voz lhe respondeu:

– Se o Sol não for embora, a Noite não chega.

Levou um baita susto a Maria Perguntadeira. “Será que a árvore fala ou o Sol me respondeu?”, pensou. Continuar lendo “A Curiosidade, o Pássaro e o Jornalismo”

Crónica Lisboeta (2001)

O primeiro diálogo que travei ao chegar em Lisboa, numa manhã fria de primavera, foi com o dono de uma banca de jornal. Eu tinha em mãos um papelzinho com o endereço de uma casa de câmbio e precisava saber como chegar ao local para trocar logo o dinheiro. Arrisquei pedir a informação ao senhor que lia distraidamente as manchetes do Diário de Notícias.

EU: “Por favor, o senhor sabe onde fica a avenida Duque de Loulé?”

SENHOR: “Sei.”

silêncio

EU: “E o senhor pode me dizer onde fica essa avenida?”

SENHOR: “Posso.”

silêncio

EU: “Então, como faço para chegar lá?”

SENHOR: “Pois sim, a senhorita deve descer a rua à frente até o largo onde está a estação Restauradores. Nesse local, pegue o metrô que passa pela estação Marquês de Pombal, na qual a senhorita deverá saltar. A avenida que procura está a uma ou duas quadras da saída principal.”

Foi minha primeira descoberta sobre os portugueses: na terrinha, a objetividade é ouro! Aos patrícios de Camões e Figo, sempre pergunte exatamente o que quer saber para não deixar margem a segundas ou terceiras respostas. O mesmo idioma que une brasileiros e portugueses pode, por vezes, afastar. Parodiando o tão citado verso de Fernando Pessoa, navegar é preciso, falar não é preciso. Isso porque ao falar não estamos fazendo uso de instrumentos de precisão como astrolábios, bússolas e mapas, que guiavam pelo mar afora os bravos navegantes de outrora. De um lado para outro do Atlântico, as palavras mudam de sentido, ganham novos usos, adaptam-se às circunstâncias.  Continuar lendo “Crónica Lisboeta (2001)”